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A experiência do tempo e do espaço na sociedade contemporânea e as novas tecnologias da comunicação*

Para a física moderna, tempo e espaço constituem o palco onde todos os eventos ocorrem. Estes eventos podem ser qualquer fenômeno que ocorra em um determinado espaço-tempo, cujo instante de tempo é único, assim como a posição também é única. O tempo, deste modo, diz respeito ao período, ou intervalo, de duração de algum evento e também é utilizado como medida para localizar este evento dentro de uma linha seqüencial de eventos. A própria concepção acerca da natureza do tempo dentro dos parâmetros da física mudou durante muitos anos, de acordo com Stephen Hawking:

“Até o início deste século, as pessoas acreditavam num tempo absoluto. Ou seja, cada evento poderia ser rotulado por um número chamado “tempo” de uma forma única, e todos os bons relógios concordariam sobre o intervalo de tempo entre dois eventos. No entanto, a descoberta de que a velocidade da luz parece a mesma para todo observador, não importa como ele estava se movendo, levou à teoria da relatividade - e nela teve-se de abandonar a idéia de que havia um tempo único e absoluto. Em vez disso, cada observador teria sua própria medida de tempo como registrado por um relógio que ele carregava: relógios carregados por diferentes observadores não precisariam necessariamente concordar. Assim, o tempo tornou-se um conceito mais pessoal, em relação ao observador que o media.” (HAWKING, 1988, p. 143).


Na Grécia antiga, a relação entre homem e tempo era entendida sob dois aspectos personificados em dois arquétipos da mitologia grega: Chronos e Kairos. Chronos diz respeito ao tempo cronológico, linear e seqüencial, como o tempo medido pelo relógio. Portanto, aquele tempo que pode ser quantificado. Já Kairos refere-se a um aspecto qualitativo do tempo, a um tempo indeterminado, significando – do grego καιρός – o “momento certo”. (SIPIORA; BAUMLIN, 2002).

Não obstante, o tempo aqui abordado diz respeito a uma construção social fundamentada na experiência humana adquirida, assim, por vivência. Isto, uma vez que espaço e tempo são categorias fundamentais da existência humana e, na maioria das vezes, o conceito é tido como algo tão certo, atribulado ao senso comum, que sequer se discute seu real sentido e suas implicações nas mais diversas esferas da sociedade.

“Registramos a passagem do tempo em segundos, minutos, horas, dias, meses, anos, décadas, séculos e eras, como se tudo tivesse seu lugar numa única escala temporal objetiva. Embora o tempo na física seja um conceito difícil e objeto de contendas, não costumamos deixar que isso interfira no nosso sentido comum do tempo, em torno do qual organizamos rotinas diárias. Reconhecemos, é verdade, que os nossos processos e percepções mentais podem nos pregar peças, fazer segundos parecerem anos-luz ou horas agradáveis passarem com tanta rapidez que mal nos damos conta. Também podemos aprender a apreciar o fato de diferentes sociedades (ou mesmo diferentes subgrupos) cultivarem sentidos de tempo bem distintos.” (HARVEY, 2007, p. 187)


De fato, o sentido de tempo tem sido modificado, sobretudo, pelas novas tecnologias e a forma como o homem passou a lidar com elas. A compreensão do jornalismo 3G dentro desta linha de entendimento, enquanto uma nova modalidade de reportar fatos e fazer jornalístico é intrínseco aos estudos da evolução dos meios de comunicação e a implosão do mundo ocidental graças ao desenvolvimento das novas tecnologias.

McLuhan, nos anos 1960, introduziu o conceito de implosão para retratar o momento atual, a era da co-presença de todos os indivíduos: “a era dos humanos ao instante” (MCLUHAN, 1969, p. 35).  Na era do homem pré-alfabético, a linguagem era o meio utilizado para se externar o sistema nervoso central. Na segunda era, a alfabética, o homem se especializou em externar partes de si mesmo, numa primeira tentativa de controlar o espaço e o tempo. Neste momento, acontece a ruptura da barreira do espaço acústico e o sentido principal que passa a predominar é o visual. Com ao rompimento da linearidade da segunda era, inicia-se a terceira era descrita pelo autor como a do homem eletrônico. “O oral é o mundo do não linear, da simultaneidade e da percepção extra-sensorial. No espaço acústico não há linhas ou direções, mas sim um campo simultâneo. Não é euclidiano. E, por concentrar uma dúzia de páginas em um único livro, o jornal deu um grande passo para este tipo de simultaneidade e não-linearidade cultural.”  (MCLUHAN, op. cit., p. 83).

Todos os novos meios, portanto, tem enriquecido as percepções humanas de linguagem, provocando rupturas com os antigos, geralmente quando estes se encontram em crise. Cada nova tecnologia que surge amplifica os meios que a precedem. Se a imprensa foi a mecanização da escritura e o telégrafo a sua eletrificação, os meios móveis de comunicação digital exprimem mais uma vez a tentativa do homem em dominar os aspectos espaço-temporais do seu ambiente de forma simultânea e cada vez mais comprimida. Estas foram inovações voltadas para o que Harvey chama de “aniquilação do espaço através tempo”.

Para Castells, Fernandez-Ardevol, Qiu e Sey (2004), tempo e espaço são dimensões materiais fundamentais da existência humana e as mudanças nas tecnologias da comunicação possuem um impacto crítico nestes dois fenômenos. Aqui se configura o que Castells propõe como espaço de fluxos , em contraposição ao espaço de lugares. Os locais agora são alcançados em grau cada vez mais rápido; as barreiras espaciais “suprimidas” progressivamente num tempo instantâneo de troca de informação. O espaço de fluxos não chega a substituir em nenhum momento o espaço de lugares, mas na verdade o permeia e são as tecnologias móveis convergentes e as conexões sem fio os agentes principais intensificadores desse processo que Paul Virilio denomina de “efeito de encolhimento” , sem no entanto que haja uma abolição definitiva da significação do espaço e do tempo como McLuhan  preconizava. Observam-se, pois, diversos setores da sociedade impactados frente a necessidade de se adaptarem a essas mudanças, entre elas, a própria maneira de se produzir e consumir produtos jornalísticos.

Na chamada “Era da Informação” por Castells, o surgimento e consolidação de novas formas e processos espaciais estão baseados na sociedade informacional em espaços de fluxos constituídos “por circuitos de impulsos eletrônicos – microeletrônica, telecomunicações, processamento computacional, sistemas de transmissão e transporte em alta velocidade – nós e centros de comunicação e a organização espacial de elites empresariais tecnocráticas e financeiras (CASTELLS, op. cit., p. 435). Para o autor, o espaço de lugares, no qual o local (em forma, função e significado) tem sua contigüidade dada pelo que está fisicamente unido, hoje cede lugar aos espaços de fluxos, sem o anular, mas sim o subordinando.

Da mesma maneira, o tempo cronológico daria espaço para o tempo intemporal , tempo que torna o futuro um eterno presente e que passa a ser principal fonte de valor na sociedade atual.  Paradoxalmente vivemos na cultura do eterno e do efêmero. Esta forma de compressão do tempo visa à instantaneidade e desta maneira induz a acelerada movimentação de produção, consumo, ideologia e política na qual a sociedade está baseada. Nas palavras do autor esta relação dialógica entre espaço de fluxos e tempo intemporal se resume da seguinte maneira:

“O tempo intemporal pertence ao espaço de fluxos, ao passo que a disciplina tempo, o tempo biológico e a seqüência socialmente determinada caracterizam os lugares em todo mundo, estruturando e desestruturando materialmente nossas sociedades segmentadas. O espaço modela o tempo em nossa sociedade, assim invertendo uma tendência histórica: fluxos introduzem tempo intemporal, lugares estão presos ao tempo.” (CASTELLS, op. cit., p. 490).


Com a difusão das tecnologias móveis de comunicação, estas duas dimensões passam a ser intensificadas na vida cotidiana e a co-existência entre espaço físico e virtual, hibridizada. Estas mudanças pressupõem também impactos diretos ou indiretos nas mídias e no cotidiano das redações de jornais. No jornalismo essa relação dualística é ainda mais visível quando se aplicam os conceitos de ordem espaciais e temporais na produção, difusão e consumo da informação na mídia online (internet), levando-se em conta a evolução tecnológica dos últimos anos.


*Excerto da Dissertação de Mestrado “JORNALISMO 3G: Reconfigurações da Produção Jornalística na Era da Mobilidade” apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da UNISINOS. (2010).