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ESTAMIRA (Parte II): Assim falou Estamira - A estética do apocalipse e a estética da bruxa*



“É o imaginário que incita o indivíduo à
transgressão das leis da realidade.
É sempre o desejo que torna audacioso o homem,
que por vezes descobre como ampliar os limites do
possível pelos próprios meios dessa realidade,
e não pela magia. Assim nasceram a tecnologia e a ciência,
em que o homem, agindo por meios fantasísticos,
só modifica as fantasias dos homens”  (DOLTO, 1998, p. 259.)


Se a tecnologia e a ciência ampliam as condições da realidade, expandindo as fronteiras do imaginário e da fantasia, que formas de negociações com a realidade esses recursos utilizados por Marcos Prado na criação de sua estética peculiar, em clima de fim de mundo e com características oníricas, podem ser pensadas na representação de Estamira e do lixão estetizado? Sobretudo, em se tratando de uma obra de não-ficção?

Não apenas em suas palavras, mas também no seu “estar no mundo”, Estamira parece carregar consigo alguma espécie de sabedoria horas provinda da sua experiência empírica e que demonstra lucidez, horas provinda de algo etéreo, “invisível” e que Prado esgarça ao máximo em sua concepção estética de representação do cenário e da própria personagem. Essa poderia ser uma das explicações de sua escolha estética.

A chuva, os raios, o vento forte, o vôo dos urubus, os aforismos muitas vezes messiânicos de Estamira. Todos esses elementos oferecem ao diretor a matéria-prima para construir toda uma atmosfera apocalíptica do lixão e mítica de Estamira, uma bruxa de nossos tempos. Isto porque todos estes elementos trazidos para o documentário são também linguagens verbais ou não-verbais, signos que funcionam como representação do seu objeto. A semiótica peirceana entende o signo como tudo aquilo que possui o poder de representar uma outra coisa diferente dele, o seu objeto. Segundo Santaella,

“um signo intenta representar, em parte pelo menos, um objeto que é, portanto, num certo sentido, a causa ou determinante do signo, mesmo se o signo representar seu objeto falsamente. Mas dizer que ele representa seu objeto implica que ele afete uma mente, de tal modo que, de certa maneira, determine naquela mente algo que é mediatamente devido ao objeto. Essa determinação da qual a causa imediata ou determinante é o signo, e da qual a causa mediata é o objeto, pode ser chamada o Interpretante.” (SANTAELLA, 1983, p.78)


Esta captação e representação a partir do “real” no produto cinematográfico mesmo que não-ficcional acontece por meio de semioses e processos sígnicos de significação e cognição existentes numa relação triádica, classificada por Peirce, entre o representamen (aquilo que funciona como signo para a mente que o percebe), o objeto (aquilo que é referido pelo signo) e o interpretante (o efeito do signo na mente daquele que o interpreta).

Também existem três modalidades de apreensão de todo e qualquer fenômeno e que constituem todas as nossas experiências: primeiridade (dá a experiência sua qualidade peculiar, pois é o sentimento enquanto simples qualidade, original e espontâneo), secundidade (dá a experiência o seu caráter factual, pois é da ordem da existência cotidiana, portanto dualística e concreta) e terceiridade (dá a experiência a aproximação entre um primeiro e um segundo, traduzindo a camada de inteligibilidade do pensamento em signos e representações).

Assim, a estética está ligada à primeiridade, mesmo que um signo estético não seja puramente da ordem da primeiridade, mas consegue ao mesmo tempo equilibrar estes três níveis: “As obras de arte não são apenas ambíguas encarnações de qualidades de sentimento, mas formas de sabedoria, de um tipo que fala à sensibilidade, ao mesmo tempo em que convida a razão a se integrar ludicamente ao sentir” (SANTAELLA, 1994, p. 151).

Todavia, de modo algum deve-se pensar numa ruptura entre a realidade representada e estetizada e a realidade propriamente dita. Documentários devem ser afirmados como produtos culturais carregados de códigos audiovisuais eletrônicos que ao mesmo tempo funcionam como signos indiciais da realidade e elo de ligação entre a realidade e o universo subjetivo ou Umwelt. (GODOY, 2001). O Umwelt tal como proposto pelo biólogo e filósofo alemão Jacob Johann von Uexküll , seria o mundo subjetivo resultado da percepção dos seres vivos em relação ao seu meio ambiente.

Desde os seus primórdios, o cinema buscou o retrato mais fiel e completo da realidade, com imagens exatas da natureza, detalhes da existência cotidiana, duração real do fato que se desenrola (BETTON, 1987). No entanto, até que ponto esta realidade pode ser considera uma realidade plena?  Segundo o autor

“o que aparece na tela não é a realidade suprema, resultado de inúmeros fatores ao mesmo tempo objetivos e subjetivos, imbricação de ações e interações de ordem ao mesmo tempo física (integração e parâmetros “sensoriais” e, principalmente, do continuum espaço-tempo) e psíquica (com todos os sentimentos e reflexos pessoais); o que aparece é um simples aspecto (relativo e transitório) da realidade, de uma realidade estética que resulta da visão eminentemente subjetiva e pessoal do realizador.” (Ibid., p. 09).


Dentro desta perspectiva, Boris Kossoy (1999) entende que a fotografia, e acrescentam-se aqui também os produtos cinematográficos, são transposições da realidade áudio-visual de determinado aspecto abordado, no contexto da vida para a realidade da representação. Esta representação será sempre parcial, nunca abrangendo a totalidade do objeto. Será sempre um recorte, um fragmento da realidade.

Um recorte, um ponto de vista, sempre deixará entrever a subjetividade de quem realiza a obra. No caso de documentários como o anteriormente citado Os Respigadores e a Respigadora, essa característica subjetiva do gênero documental fica mais evidente ainda quando a autora se insere na sua própria produção para realizar uma reflexão sobre si mesma e sobre o próprio fazer cinematográfico.

Em Estamira, o olhar subjetivo do diretor se manifesta, dentre outros modos, em sua estética lúdica com a utilização de filtros e adornos audiovisuais, que vão de variações cromáticas à exploração dos ventos uivantes do lixão. A música de abertura médio-oriental, no acompanhamento da rotina de Estamira até o aterro, também não foi selecionada por acaso. Não apenas pela melancolia contida na sua melodia e que remete ao sofrimento e abandono. Mas há um poder de evocar uma atmosfera messiânica e profética se pensarmos o Oriente Médio como berço das três maiores religiões monoteístas do mundo: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. E religião também é um dos temas centrais abordados no documentário.

Portanto há todo um jogo lúdico de representações que se vale dos mais variados elementos signicos na construção estética do documentário. Em suma, é um equívoco afirmar que esta representação estetizada não seja a realidade da vida cotidiana. Trata-se de uma realidade distinta, que passa a operar com carga ideológica e de forma interpretativa, inerentes à construção do signo. Configuram um novo mundo, uma segunda realidade, que não é nem mais verdadeira nem mais falsa do que a primeira realidade, factual, concreta.

Estes aspectos do “real” acabam sendo elementos que na representação do autor tornam-se próprios da fabulação do documentário. Fica evidente um casamento do realismo captado na percepção de Marcos Prado com a magia, o fantástico, o sonho, seja nas alucinações de Estamira, seja no visual feio e pútrido do aterro ou mesmo na beleza onírica do “lixão-apocalíptico”.

Referências Bibliográficas


BETTON, Gérard. Estética do cinema. São Paulo: Martins Fontes, 1987.

DOLTO, Françoise. Solidão. São Paulo: Martins Fontes, 1998. 502 p.

GODOY, Marcelo. Realismo Documentário, Teoria da Amostragem e Semiótica Peirceana. Os signos audiovisuais eletrônicos (analógicos ou digitais) como índices da realidade. São Paulo. Disponível em: http://www.bocc.ubi.pt/pag/godoy-helio-documentario-peirce.pdf. Acesso em: 06 dez. 2008.

KOSSOY, Boris. Realidades e Ficções na trama fotográfica. Cotia: Ateliê Editorial,
1999.

SANTAELLA, Lúcia. O que é semiótica. São Paulo: Brasiliense, 1983. 114 p.

__________, Lúcia. Estética: de Platão a Peirce. São Paulo: Experimento,1994.



*Parte do artigo “Análise do documentário Estamira: a estética na obra de Marcos Prado” (2009) escrito para disciplina de Documentário e Jornalismo do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos.